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Física Universitária · Feynman Vol. I · Cap. 4

Conservação da Energia

Esta aula acompanha o capítulo 4 das Feynman Lectures, em que a energia aparece como um número que sabemos calcular e que não muda, aconteça o que acontecer com o sistema. Vamos dos blocos do Dennis às máquinas que erguem pesos, passar pelo plano inclinado e pela corrente de Stevin e chegar à energia cinética e à energia de repouso. O capítulo original pode ser lido de graça no site do Caltech, e vale a pena deixá-lo aberto ao lado.

  1. 1Os blocos do Dennis
  2. 2Máquinas reversíveis
  3. 3Plano inclinado
  4. 4A corrente de Stevin
  5. 5Trabalho virtual
  6. 6Energia cinética
  7. 7Outras formas
PASSO 1

Se ninguém sabe o que é energia, como sabemos que ela se conserva?

Antes de falar de energia, vamos passar um tempo contando blocos, pesando uma caixa e lendo o nível da água numa banheira. A brincadeira parece longe da física, mas no fim do passo ela vai mostrar como uma lei tão geral pode tratar de algo que ninguém consegue apontar com o dedo.

Para entender o que isso quer dizer, vamos usar uma história, e o exemplo é do Feynman, com números nossos. O Dennis tem 28 blocos que não quebram nem se dividem, a mãe dele os conta no fim de cada dia e, enquanto todos ficam no chão, a conta dá 28, dia após dia.

O problema começa quando o Dennis passa a esconder blocos. Alguns vão para a caixa de brinquedos, que a mãe não pode abrir, e ela contorna a proibição pondo a caixa numa balança. Vazia, a caixa tem 400 g, e cada bloco acrescenta 75 g, então uma caixa de 625 g esconde três blocos. Outros vão para o fundo da banheira, e a mãe passa a ler o nível da água numa régua, que marca 120 mm sem blocos e sobe 5 mm por bloco. Cada esconderijo exige um termo novo na conta, com a sua própria regra para converter gramas ou milímetros em blocos.

Num dia, mesmo com esses três termos, a conta dá 25. Em vez de abandonar a lei, a mãe procura o que falta e acha a janela aberta, com três blocos no quintal. A física passou por isso várias vezes, e quando a energia de um sistema parecia diminuir, quase sempre havia uma forma que ainda não entrava na conta, como o calor do atrito, ou energia que saía do sistema pela sua própria janela.

A lei garante uma coisa só, que somados os termos certos o total não muda. Ela não diz como cada transformação acontece, e a mãe do Dennis está numa situação parecida, já que lê uma balança e uma régua e soma números sem ver o que há dentro da caixa, de modo que na fórmula final os blocos quase não aparecem. Com a energia a situação talvez seja mais radical, porque nem sabemos o que ela é, e temos apenas as regras para calcular cada termo.

\(N = n_{\text{vista}} + \dfrac{m_{\text{caixa}} - 400\ \text{g}}{75\ \text{g}}\)\(+\ \dfrac{\ell - 120\ \text{mm}}{5\ \text{mm}} + n_{\text{janela}} = 28\)\(n_{\text{vista}}\) é o número de blocos no chão, \(m_{\text{caixa}}\) é a massa da caixa fechada, lida na balança, \(\ell\) é o nível da água na banheira e \(n_{\text{janela}}\) é o número de blocos no quintal. A caixa vazia tem 400 g e cada bloco, 75 g; sem blocos, a água fica em 120 mm, e cada bloco a sobe 5 mm.

No Feynman: §4-1 What is energy? ↗

Para conversar

  • Clique em Novo dia várias vezes só com À vista ligado. Em quantos dias a conta chega a 28?
  • Ligue Caixa e Banheira e deixe a Janela de fora. Os dias em que o total fica abaixo de 28 têm algo em comum?
  • Num dia com blocos na banheira, ligue Água turva. A régua continua dizendo quantos blocos estão lá, mesmo sem enxergarmos nenhum?
  • Procure um dia em que a conta sem a janela dá 28. Isso prova que a janela não importa?
À vista
Caixa
Banheira
Janela
Total
PASSO 2

Por que não existe moto-perpétuo?

A mãe do Dennis sabia converter gramas em blocos. Para a energia, precisamos da regra de cada termo, e vamos começar pela energia de um peso erguido perto do chão. O argumento é do Feynman, inspirado num raciocínio de Carnot sobre máquinas a vapor, e parte de um único postulado: não existe moto-perpétuo. Na nossa bancada, isso quer dizer que, depois de um ciclo completo, com as máquinas de volta ao começo, nenhum peso pode ter ficado mais alto do que estava.

Pense numa alavanca que baixa 1 unidade de peso por 1 m e, com isso, ergue 3 unidades a uma altura \(X\). Ela é reversível quando funciona igualmente bem no sentido contrário, erguendo a unidade de volta a 1 m enquanto as 3 unidades descem a mesma altura \(X\). Toda máquina de verdade paga algum pedágio ao atrito, e a reversível é o caso ideal em que esse pedágio vale zero.

Tomemos então uma máquina reversível A, que ergue as 3 unidades até \(X_A\), e uma máquina B qualquer, que as ergue até \(X_B\). Rodamos B para frente, e a unidade desce 1 m enquanto a pilha sobe \(X_B\). Depois rodamos A para trás, a pilha desce \(X_A\) e a unidade volta a 1 m. As duas máquinas estão de novo no começo, a unidade está outra vez a 1 m, e a pilha terminou \(X_B - X_A\) mais alta do que estava, sem que nada de fora tenha ajudado.

Se \(X_B\) fosse maior que \(X_A\), bastaria repetir o ciclo para erguer peso sem fim, e como o postulado proíbe isso, concluímos que nenhuma máquina, por mais engenhosa que seja, ergue mais alto que uma reversível. Quando B também é reversível, podemos trocar os papéis das duas, e o mesmo raciocínio mostra que \(X_A\) também não supera \(X_B\). Todas as reversíveis erguem à mesma altura, seja qual for o mecanismo por dentro.

Falta o valor dessa altura. O Feynman o obtém com uma montagem de prateleiras em que, no saldo, uma única unidade sobe \(3X\), e o argumento do moto-perpétuo, aplicado nos dois sentidos, obriga \(3X\) a valer exatamente 1 m. Com a razão 1 : 3, portanto, \(X = 1/3\) m.

Numa máquina reversível, peso vezes altura não muda: 1 unidade vezes 1 m antes, 3 unidades vezes 1/3 m depois. A soma de \(W\,h\) sobre todos os pesos é o termo gravitacional da contabilidade, a energia potencial gravitacional, e como o peso é \(W = m\,g\), ela se escreve \(m\,g\,h\). Uma máquina real fica abaixo da reversível, e o que ela perde vira calor no atrito, um termo que vai aparecer mais adiante.

\(W_1\,h_1 = W_2\,h_2\)\(\Delta E_{\text{ciclo}} = n\,\big(X_B - \tfrac{1}{n}\big)\)\(W_1\) é o peso que desce \(h_1\) e \(W_2\), o peso que sobe \(h_2\) numa máquina reversível. No ciclo, \(n\) é a razão entre os pesos, \(X_B\) é a altura a que a máquina B ergue as \(n\) unidades quando a unidade desce 1 m, e \(\Delta E_{\text{ciclo}}\) é o peso vezes altura que sobra, em unidade·m, depois de B para frente e A para trás.

No Feynman: §4-2 Gravitational potential energy ↗

Para conversar

  • Com 1 : 3, ponha \(X_B\) em 0,40 m e rode cinco ciclos. Para onde vai a pilha, e quanto peso vezes altura sobra no fim?
  • Baixe \(X_B\) para 0,25 m e repita. O que o sinal do saldo diz sobre a máquina B?
  • Procure o único valor de \(X_B\) em que nada sobra nem falta. Por que ele coincide com o \(X\) da reversível?
  • Troque a razão para 1 : 4. Qual passa a ser o \(X\) da reversível, e o produto \(4\,X\) muda?
X da reversível
Ciclos
Peso × altura de graça
PASSO 3

Quanto peso segura um bloco num plano 3-4-5?

Na bancada, um bloco de peso \(W = 10\) N está sobre uma rampa lisa de 5 unidades de comprimento e 3 de altura. Um fio sai dele, passa por uma polia no topo e segura do outro lado um peso pendurado \(w\). Queremos o valor de \(w\) que deixa tudo parado, e vamos achá-lo com a contabilidade de peso vezes altura do passo anterior, sem decompor nenhuma força.

Se o sistema está em equilíbrio, podemos empurrá-lo de leve num sentido ou no outro sem gastar nada, como fazíamos com a máquina reversível. Imagine então que o bloco anda uma distância \(s\) rampa acima. O fio não estica, e o peso pendurado desce os mesmos \(s\). O bloco, por sua vez, anda \(s\) numa rampa que sobe \(h = 3\) a cada \(L = 5\), e ganha só \(s\,h/L\) de altura.

Esse movimento imaginado, que não precisa acontecer, é um deslocamento virtual. No equilíbrio, o peso vezes altura que o bloco ganha tem de ser o que o peso pendurado perde, \(W\,(s\,h/L) = w\,s\). O \(s\) aparece dos dois lados e se cancela, e sobra \(w = W\,h/L\), que com os nossos números dá 6 N. Como o \(s\) sumiu, a conta vale para qualquer deslocamento pequeno, e é por isso que o saldo no painel fica em zero com 6 N pendurados, seja qual for a posição do controle.

Quem aprendeu plano inclinado decompondo o peso do bloco vai reconhecer o resultado, já que \(h/L\) é o seno do ângulo da rampa. A diferença é que aqui ninguém decompôs nada: o resultado saiu do controle \(s\), que mexe o bloco e o peso e anota quanto cada um sobe ou desce. O exemplo do plano 3-4-5 é do Feynman.

\(w = W\,\dfrac{h}{L}\)\(\sum_i W_i\,\Delta h_i = 0\)\(W\) é o peso do bloco, \(w\) o peso pendurado, \(h\) a altura e \(L\) o comprimento da rampa. Na soma, \(W_i\) é o peso de cada corpo e \(\Delta h_i\) a variação da sua altura num deslocamento virtual, positiva quando ele sobe.

No Feynman: §4-2 Gravitational potential energy ↗

Para conversar

  • No plano 3-4-5, ponha \(w\) em 6,0 N e leve o deslocamento virtual de uma ponta à outra. O saldo sai de zero em algum momento?
  • Suba \(w\) para 7 N e deixe \(s\) positivo. O que o sinal do saldo diz sobre o rumo que o sistema tomaria se fosse solto?
  • Em Ângulo livre, com \(w\) em 4 N, procure o ângulo em que o equilíbrio fica mais perto de 4 N. Quanto vale o seno desse ângulo?
  • Por que nenhum ângulo da rampa exige um peso pendurado maior que os 10 N do próprio bloco?
Equilíbrio em
Contabilidade
PASSO 4

Por que a corrente de Stevin não anda sozinha?

Na bancada, uma corrente de elos iguais, a 0,5 unidade um do outro, abraça um prisma de base horizontal. São 6 elos no lado esquerdo, 8 no direito e um laço pendurado por baixo. O lado direito tem mais elos, e a primeira intuição é que ele deveria arrastar a corrente para baixo, puxando o resto atrás de si.

Suponha que isso acontecesse e que a corrente avançasse um elo por conta própria. Cada elo ocuparia o lugar do vizinho, e o desenho seria idêntico ao de antes, com o mesmo número de elos em cada lado e o mesmo laço embaixo. O que a fez andar o primeiro elo a faria andar o segundo, e o terceiro, sem fim. Isso é um moto-perpétuo, que o postulado do passo 2 proíbe, e a única saída é a corrente ficar parada.

Agora olhe o laço de baixo. Ele é simétrico, puxa as duas pontas da mesma maneira e, por isso, pode ser cortado sem desfazer o equilíbrio. Sobram os dois trechos sobre o prisma, cada um tentando escorregar pelo seu lado, e eles se equilibram. O trecho mais longo fica no lado menos inclinado, e as duas coisas se compensam na medida exata, \(n_1 \sin\alpha = n_2 \sin\beta\). Lido de trás para frente, isso diz que um peso numa rampa puxa o fio na proporção do seno da inclinação, que é o resultado do passo 3, obtido aqui sem nenhuma conta de forças.

Com lados 3 e 4 e base 5, o prisma é o próprio triângulo 3-4-5. O argumento é de Simon Stevin, engenheiro flamengo do fim do século XVI, e o Feynman conta que um desenho parecido foi gravado no túmulo dele. Uma nota da própria edição corrige a história, porque o túmulo nunca foi encontrado, e Stevin usava esse desenho como uma espécie de marca. Foi o Feynman quem o trouxe para esta conversa sobre energia.

\(n_1 \sin\alpha = n_2 \sin\beta = \lambda H\)\(n_1\) e \(n_2\) são os números de elos nos lados esquerdo e direito, \(\alpha\) e \(\beta\) os ângulos que esses lados fazem com a base, \(H\) a altura do prisma e \(\lambda\) o número de elos por unidade de comprimento, que aqui vale 2.

No Feynman: §4-2 Gravitational potential energy ↗

Para conversar

  • Clique em Empurrar um elo algumas vezes. Há alguma diferença entre o desenho antes e depois de cada empurrão?
  • Corte o laço com os lados 3 e 4. O lado com mais elos tem mais peso, então por que ele não vence?
  • Ponha os dois lados em 5. O que acontece com os ângulos e com o puxão de cada lado?
  • Leve um lado a 2 e o outro a 6. Por que esse prisma não serve para o argumento?
Elos à esquerda
Elos à direita
Puxão ao longo de cada lado (elos × sen)
PASSO 5

Como achar uma força sem desenhar forças?

Os passos 2 a 4 repetiram o mesmo procedimento. Imaginamos um movimento pequeno de um sistema em equilíbrio, anotamos quanto cada peso sobe ou desce e exigimos que a soma de peso vezes variação de altura dê zero. É o princípio dos trabalhos virtuais, e ele serve para mecanismos bem mais complicados que uma rampa. Na barra articulada da bancada, o apoio não deixa nada girar, e mesmo assim é um giro imaginado que nos dá a força dele.

Comecemos pelo macaco de rosca da bancada, que ergue um carro de 5000 N. A cada volta completa do braço, a mão descreve uma circunferência de raio \(r\) e percorre \(2\pi r\), enquanto a rosca faz a carga subir um passo \(p\), de alguns milímetros. Com \(r = 0{,}3\) m e \(p = 4\) mm, a mão anda 1,88 m para o carro subir 0,004 m. O saldo zero exige \(F \cdot 2\pi r = W\,p\), e a força na mão sai em cerca de 10,6 N, o peso de um pacote de um quilo. Isso vale para uma rosca ideal, porque numa de verdade o atrito cobra bem mais.

A barra articulada é menos óbvia. Ela tem 4 m e 30 N, gira em torno da ponta esquerda e leva dois pesos, de 20 N e 50 N, que você pode arrastar. Queremos a força \(F\) que um apoio, a uma distância \(x_F\) da articulação, precisa fazer para mantê-la horizontal. Num giro pequeno \(\delta\theta\), um ponto a uma distância \(x\) da articulação sobe \(x\,\delta\theta\), e o apoio sobe \(x_F\,\delta\theta\). O saldo zero dá \(F\,x_F\,\delta\theta = \sum_i W_i\,x_i\,\delta\theta\), e o \(\delta\theta\) se cancela como o \(s\) do passo 3.

O peso da própria barra entra como se estivesse todo no centro, a 2 m, porque somar \(W\,x\) sobre os pedaços de uma barra uniforme dá o peso total vezes a posição do meio. Com o apoio a 3 m, a soma \(\sum_i W_i\,x_i\) vale \(30 \cdot 2 + 20 \cdot 1 + 50 \cdot 2{,}5\), ou 205 N·m, e dividida pelos 3 m dá \(F \approx 68{,}3\) N. Os dois exemplos, o macaco e a barra, são do Feynman, aqui com números nossos.

\(F = W\,\dfrac{p}{2\pi r}\)\(F\,x_F = \sum_i W_i\,x_i\)No macaco, \(W\) é o peso da carga, \(p\) o passo da rosca e \(r\) o comprimento do braço. Na barra, \(x_F\) é a distância do apoio à articulação e \(W_i\) o peso de cada carga, a uma distância \(x_i\) da articulação, com o peso da barra no centro dela.

No Feynman: §4-2 Gravitational potential energy ↗

Para conversar

  • No macaco, dobre o braço \(r\). O que acontece com a força e com a distância que a mão percorre em cada volta?
  • Com o braço em 0,3 m, qual é o maior passo \(p\) que deixa a força abaixo de 5 N?
  • Na barra, arraste o peso de 50 N até a ponta. Quanto muda a força no apoio?
  • Leve o apoio para 1 m. Por que ele precisa fazer mais força que os 100 N de barra e pesos juntos?
Força
Contabilidade
PASSO 6

De onde vem o ½mv²?

Na bancada, uma massa presa a um fio de 1,2 m sai do repouso afastada 50° da vertical, 0,43 m acima do ponto mais baixo do arco. Solta, ela desce, passa pelo fundo a quase 2,9 m/s e sobe do outro lado até a linha tracejada, onde para de novo. No fundo, a altura de partida parece ter sumido da conta, mas volta inteira na subida, e alguma coisa precisa tê-la guardado pelo caminho.

Essa coisa é a velocidade, e podemos medi-la em altura. Um corpo que passa pelo fundo com velocidade \(v\) consegue, no máximo, subir uma certa altura, e o jeito mais simples de calculá-la é pensar numa pedra jogada para cima. Da queda livre sabemos que quem cai de uma altura \(h\) chega embaixo com \(v^2 = 2gh\), e a mesma conta, lida de trás para frente, diz até onde a pedra sobe. A velocidade vale, portanto, o mesmo que um peso \(W\) erguido a \(v^2/2g\), e como \(W = m\,g\), \(W\,v^2/2g = \tfrac12 m v^2\). Esse é o termo de movimento da contabilidade, a energia cinética.

As duas barras ao lado do pêndulo acompanham isso a cada instante, uma com a altura perdida desde a partida e a outra com o \(v^2/2g\) do momento, e sobem e descem juntas. No gráfico, os pontos de \(v^2\) contra \(h\) caem sobre uma reta que passa pela origem com inclinação \(2g\), cerca de 19,6 m/s².

Quem já sabe derivar chega ao mesmo lugar sem passar pela pedra. Se \(K = \tfrac12 m\,v^2\), a taxa de variação é \(dK/dt = m\,\vec v\cdot d\vec v/dt\), e como \(m\,d\vec v/dt\) é a força total, ela vale \(\vec F\cdot\vec v\). No pêndulo, a tração do fio é sempre perpendicular à velocidade e não contribui, e o peso entra com \(-W\,dy/dt\), em que \(y\) é a altura da massa. Assim, \(K\) cresce exatamente no ritmo em que \(W\,y\) diminui, e a soma dos dois termos não muda.

O botão Pino de Galileu põe um prego na vertical do ponto de suspensão. Quando o fio passa pela vertical, ele dobra no pino, e a massa sobe do outro lado por um arco mais curto e mais fechado que o de antes. Galileu descreveu esse experimento nos Discorsi, de 1638, e a massa continua a parar na linha tracejada, seja qual for a profundidade do pino, desde que o fio não afrouxe. O caminho da subida mudou e a velocidade no fundo não, e é ela que decide a altura.

O pêndulo e a ideia de medir a energia de movimento pela altura que ela permite alcançar são do Feynman, e a conta com derivadas e o pino de Galileu são acréscimos nossos. O \(\tfrac12 m v^2\) também é uma aproximação, e o passo 7 mostra até onde ela vale.

\(K = \tfrac{1}{2}\,m\,v^2\)\(\dfrac{dK}{dt} = \vec F\cdot\vec v\)\(\dfrac{v^2}{2g} = h\)\(K\) é a energia cinética de um corpo de massa \(m\) e velocidade \(v\), \(\vec F\) é a força total sobre ele e \(g = 9{,}8\) m/s². Na última, \(h\) é a altura perdida desde o ponto em que o corpo estava parado.

No Feynman: §4-3 Kinetic energy ↗

Para conversar

  • Sem o pino, pause o pêndulo em vários pontos da descida. As duas barras chegam a diferir em algum momento?
  • Com amplitude de 50°, qual é a velocidade no fundo? Confira o valor do painel com \(v = \sqrt{2gh}\).
  • Ligue o Pino de Galileu e mude a profundidade. A massa continua a parar na linha tracejada? E o tempo de uma ida e volta, muda?
  • Leve a amplitude a 80° com o pino ligado. Por que a profundidade não passa de certo valor?
Altura perdida h
v²/2g
Velocidade
PASSO 7

Quantas formas de energia há na conta?

Na bancada, uma mola de 200 N/m comprimida 10 cm guarda 1 J. Solta, ela lança para cima uma bolinha de 50 g, que sobe cerca de 2 m antes de parar. Ao arrastar o tempo, a coluna de barras troca de cor, da parcela elástica para a cinética e da cinética para a gravitacional, mas a altura dela não muda. É a conta da mãe do Dennis com três termos, cada um com a sua regra de conversão.

Em Frenagem, um bloco que desliza com 50 J de energia cinética para por atrito, e os 50 J reaparecem como energia térmica. Esse termo é um velho conhecido com outro nome. O atrito faz as moléculas do bloco e do piso se agitarem mais depressa, cada uma para um lado, e a energia térmica é a energia cinética desse movimento desordenado, que aparece para nós como as duas superfícies mais quentes. A energia continua na conta, só que espalhada por um número enorme de partículas, e é por isso que ninguém consegue juntá-la de volta para empurrar o bloco.

Em Queima, 50 kJ de energia química viram 45 kJ de calor e 5 kJ de luz, a energia radiante. Uma reação rearranja elétrons e núcleos, e o que ela libera vem da energia elétrica entre essas cargas e do movimento dos elétrons, que muda junto com o arranjo. A elástica tem a mesma origem, já que comprimir a mola aproxima átomos. Até a luz da chama da bancada nasce de cargas que se agitam nas moléculas quentes, e por isso a parcela radiante também acaba na conta das cargas elétricas.

Em Fissão, um núcleo de urânio 235 que absorve um nêutron se parte em dois fragmentos, que se afastam com cerca de 200 MeV, a maior parte como energia cinética, e é toda cinética na bancada, para simplificar. Os pedaços, somados, têm menos massa que o núcleo original mais o nêutron, e a diferença vezes \(c^2\) dá esses 200 MeV. A energia nuclear vem de um equilíbrio entre a atração nuclear, que prende prótons e nêutrons, e a repulsão elétrica entre os prótons, e quase tudo o que a fissão libera é essa repulsão empurrando os dois fragmentos para longe um do outro. Na contabilidade, ela aparece como a diferença de massa, e por \(E = m\,c^2\) a própria massa é uma forma de energia, que um corpo tem mesmo parado.

A energia cinética também precisa de revisão. O \(\tfrac12 m v^2\) do passo 6 é o primeiro termo da expansão de \((\gamma - 1)\,m\,c^2\), e as duas expressões são indistinguíveis enquanto \(v\) é pequena perto de \(c\). Em Muito rápido, as duas curvas aparecem lado a lado, e a v/c = 0,9 a relativística já passa de três vezes a clássica.

Voltamos, assim, aos blocos do passo 1. Gravitacional, cinética, elástica, térmica, química, radiante, elétrica, nuclear e massa são termos da mesma fórmula, cada um com a sua regra, e a lei garante apenas que a soma não muda. A lista segue o Feynman. Já a leitura da fissão como repulsão elétrica é nossa, porque o livro trata a energia nuclear como uma forma à parte, que não se sabia reduzir às outras, e os números das bancadas também são nossos.

\(E = m\,c^2\)\(K = (\gamma - 1)\,m\,c^2\)\(\approx \tfrac12 m v^2\ \ (v \ll c)\)\(\gamma = 1/\sqrt{1 - v^2/c^2}\)\(E\) é a energia de repouso de um corpo de massa \(m\), \(c = 299\,792\,458\) m/s é a velocidade da luz e \(\gamma\) é o fator de Lorentz. \(K\) é a energia cinética de um corpo de velocidade \(v\), e a aproximação vale quando \(v\) é muito menor que \(c\).

No Feynman: §4-4 Other forms of energy ↗

Para conversar

  • Na Mola, arraste o tempo devagar. Em que trecho a parcela cinética é a maior, e por que ela some no topo?
  • Em Frenagem, os 50 J térmicos ainda são energia de movimento. Por que, então, eles não voltam a empurrar o bloco?
  • Cada unidade de massa atômica vale 931,5 MeV. Quanto vale a energia de repouso de um núcleo de urânio 235, e que fração dela a fissão libera?
  • Em Muito rápido, procure o v/c em que as duas curvas se afastam 1 %. Que velocidade é essa em km/s?
Total
Parcelas

Para onde vamos

O capítulo seguinte do Feynman, Time and Distance, deixa a energia de lado e pergunta como se medem as duas grandezas de que toda a mecânica depende, o tempo e a distância. Ele também está no site do Caltech, e a aula desta trilha que o acompanha é Tempo e Distância.