← Todas as aulas
Física Universitária · Feynman Vol. I · Cap. 10

Conservação do Momento

Esta aula acompanha o capítulo 10 das Feynman Lectures, em que a terceira lei de Newton se transforma numa lei de conservação. Se cada força entre dois corpos vem com um par igual e oposto, o momento total de um grupo de corpos isolado não pode mudar, e daí saem os resultados das colisões, a maneira como um foguete acelera no vácuo e, com uma correção que só pesa perto da velocidade da luz, o comportamento das partículas rápidas. O capítulo original pode ser lido de graça no site do Caltech.

  1. 1A explosão
  2. 2A colisão que gruda
  3. 3Energia nas colisões
  4. 4O foguete
  5. 5Perto da luz
PASSO 1

O que acontece quando dois carrinhos se empurram?

A bancada começa com dois carrinhos parados no meio de um trilho sem atrito, o A com 1 kg à esquerda e o B com 3 kg à direita, e uma mola comprimida e travada entre eles, guardando 6 J. O botão Soltar a mola abre a trava. Durante 0,4 s a mola empurra os dois para lados opostos, e daí em diante não toca mais em nenhum deles; o A segue a 3 m/s para a esquerda e o B a 1 m/s para a direita, cada um com a velocidade que tinha no fim do empurrão.

As marcas que os carrinhos deixam no trilho a cada segundo tornam a diferença fácil de ver. As do A ficam a 3 m umas das outras, as do B a 1 m, e a razão entre as duas distâncias não muda enquanto houver trilho. Enquanto a mola está entre eles, ela empurra o A para a esquerda e o B para a direita, e pode-se pensar nisso como o A empurrando o B através da mola e o B empurrando o A de volta. A terceira lei de Newton diz que essas duas forças têm, a cada instante, o mesmo tamanho e sentidos opostos, e as duas setas vermelhas da bancada têm por isso o mesmo comprimento, embora uma delas aja num carrinho com o triplo da massa do outro.

As duas forças também começam e terminam juntas, de modo que os impulsos que dão são iguais e opostos. No passo 1 da aula do capítulo 9, o impulso aparecia como a variação do momento; aqui ele tira do zero o momento do A e o do B na mesma medida, com sinais trocados. O A termina com 1 kg vezes −3 m/s, o B com 3 kg vezes 1 m/s, e a soma dá zero, como dava antes de a trava se abrir.

força da mola, enquanto age   velocidade

Com massas iguais nos controles, os dois saem com a mesma rapidez em sentidos opostos. É um resultado que se poderia prever sem conta nenhuma, só por simetria, já que o arranjo é o mesmo visto no espelho. Com massas diferentes, a razão entre as velocidades é o inverso da razão entre as massas, com o sinal trocado, e o carrinho com o triplo da massa sai com um terço da velocidade.

A energia da mola se reparte de outro modo. Como os dois momentos têm o mesmo tamanho \(p\), a energia cinética de cada carrinho, \(p^2/2m\), é maior no que tem menos massa. Dos 6 J da mola, o A leva 4,5 J e o B só 1,5 J, na razão inversa das massas. Quando um adulto e uma criança de patins se empurram, a criança sai mais depressa e com a maior parte da energia, embora as forças sejam iguais, como na aula de ensino médio sobre ação e reação.

Feynman observa que a experiência pode até servir para comparar massas, chamando de iguais as que saem com a mesma rapidez, e que essa aparente definição já carrega leis que só a experiência confirma.

\(\vec F_{12} = -\vec F_{21}\)\(m_1 v_1 + m_2 v_2 = 0\)\(\dfrac{v_1}{v_2} = -\dfrac{m_2}{m_1}\)\(\vec F_{12}\) é a força que o carrinho 1 faz no 2 e \(\vec F_{21}\) a que o 2 faz no 1; \(m_1\), \(m_2\) são as massas e \(v_1\), \(v_2\) as velocidades depois do empurrão, com sinal (positivo para a direita).

No Feynman: §10-1 Newton’s Third Law ↗ · §10-2 Conservation of momentum ↗

Para conversar

  • Ponha 2 kg nos dois carrinhos. Como ficam as marcas do A e do B no trilho? E a barra da energia?
  • Com o A em 0,5 kg e o B em 4 kg, quantas vezes o A é mais rápido que o B? Que parte dos 6 J fica com ele?
  • Dobre a energia da mola, de 5 J para 10 J. As velocidades dobram? E a razão entre elas?
  • Durante o empurrão, a soma dos dois momentos chega a ser diferente de zero em algum instante? Olhe as barras do momento.
Velocidades A · B (m/s)
Momentos A · B (kg·m/s)
Energias A · B (J)
PASSO 2

Quem estava parado numa colisão?

Agora os carrinhos vêm um contra o outro e grudam quando se tocam, como se os para-choques tivessem velcro. Nos valores iniciais o A tem 3 kg e anda a 2 m/s para a direita, o B tem 1 kg e vem a 2 m/s para a esquerda, e depois do choque o par segue junto a 1 m/s. Os momentos de antes, 6 kg·m/s do A e −2 kg·m/s do B, somam 4 kg·m/s, e os 4 kg do par a 1 m/s dão a mesma soma. Durante o choque cada carrinho empurra o outro com forças iguais e opostas pelo mesmo tempo, e o argumento do passo 1 vale de novo: o momento que um perde o outro ganha.

A velocidade com que o par segue tem um significado próprio. Ela é a velocidade do centro de massa, a média das velocidades ponderada pelas massas, que a bancada marca com um triângulo sob o trilho. O triângulo anda a 1 m/s antes, durante e depois do choque, como se nada tivesse acontecido, e os carrinhos grudados simplesmente passam a andar com ele. A aula de ensino médio sobre colisões chega à mesma fórmula pela conservação; aqui interessa o que muda quando se troca de observador.

carrinho A   carrinho B   momento total   centro de massa

Os botões de referencial mostram a mesma colisão vista por alguém que anda ao lado do trilho com velocidade constante \(u\), e para isso basta subtrair \(u\) de toda velocidade. Para quem acompanha o A antes do choque, a 2 m/s, o A está parado, o B chega a −4 m/s e o par sai a −1 m/s. Os números mudaram todos, e o momento total vale −4 kg·m/s antes e depois. Para quem anda com o centro de massa, os dois chegam com momentos opostos, 3 e −3 kg·m/s, e o par fica parado. Estar parado ou em movimento depende de quem olha, e as leis da mecânica parecem as mesmas para todo observador que se mova em linha reta com velocidade constante; é a relatividade de Galileu.

Feynman usa essa ideia na direção contrária, para chegar à conservação do momento sem falar de forças. Duas massas iguais que vêm com velocidades opostas e grudam devem parar, por simetria. Com 2 kg nos dois carrinhos, 1,5 m/s no A e −1,5 m/s no B, o botão Carrinho A mostra o mesmo choque como um carrinho a −3 m/s que bate num parado, e o par sai com a metade, −1,5 m/s. Combinando casos simétricos e trocas de referencial, ele estende a regra a massas diferentes, e em todos os casos a soma das massas vezes as velocidades sai igual antes e depois.

A energia cinética não tem a mesma sorte. Nos valores iniciais, 8 J antes do choque viram 2 J depois, e os 6 J que faltam foram para a deformação dos para-choques e para o calor. A energia de antes e a de depois mudam de um referencial para outro, mas a diferença entre elas é a mesma nos três; visto do centro de massa, toda a energia que havia se perde. O passo 3 volta a esse ponto com colisões em que os carrinhos não grudam.

\(m_1 v_1 + m_2 v_2 = (m_1 + m_2)\,v'\)\(v' = v_{\text{CM}}\)\(v \to v - u\)\(v_1\), \(v_2\) são as velocidades antes do choque e \(v'\) a do par depois; \(v_{\text{CM}}\) é a velocidade do centro de massa, e \(u\) a velocidade de quem observa, que se subtrai de toda velocidade na troca de referencial.

No Feynman: §10-3 Momentum is conserved! ↗

Para conversar

  • Com os valores iniciais, passe pelos três referenciais. Que números mudam nos quadros? O que fica igual entre o antes e o depois? E a energia perdida?
  • Deixe o B parado e dê ao A o triplo da massa do B. Que fração da velocidade do A o par conserva depois do choque?
  • Escolha velocidades em que o A não alcança o B. O que a bancada mostra? O triângulo do centro de massa se move?
  • Ache massas e velocidades em que o par fica parado no referencial do trilho. Que relação há entre os dois momentos de antes?
Momento antes · depois (kg·m/s)
Velocidade final (m/s)
Energia perdida (J)
PASSO 3

Uma colisão perde energia ou momento?

Nos valores iniciais da bancada, o A, de 1 kg, vem a 4 m/s contra o B, de 3 kg, parado, e o coeficiente de restituição está em 0,5. Depois do choque o A volta a −0,5 m/s e o B segue a 1,5 m/s. Os momentos somam 4 kg·m/s antes e depois, como nos dois passos anteriores, enquanto a energia cinética cai de 8 J para 3,5 J. Nas barras, o traço preto do momento total fica no mesmo lugar nas duas linhas, e a barra da energia encolhe, deixando tracejado o pedaço que se perdeu.

O momento se conserva em qualquer colisão porque as forças de contato são internas ao par, iguais e opostas, de borracha ou de aço. Para a energia cinética não existe garantia parecida. Durante o contato os para-choques se deformam, e a parte da deformação que não se desfaz fica como calor, som e vibração do material. O coeficiente \(e\) mede quanto volta, comparando a velocidade com que os carrinhos se afastam depois do choque com a velocidade com que se aproximavam antes. Com \(e = 1\) a colisão é elástica e a energia cinética também se conserva; com \(e = 0\) os carrinhos não se afastam, ficam grudados, e voltamos ao passo 2.

Com massas iguais, o B parado e \(e = 1\), o A para e o B sai com a velocidade que o A tinha; a velocidade passa inteira de um carrinho para o outro. É o que se vê no pêndulo de Newton, o enfeite de mesa com esferas de aço lado a lado, em que a esfera que bate fica parada e a da outra ponta sai. Com massas diferentes não há troca, e um carrinho leve que bate elasticamente num pesado volta para trás.

carrinho A   carrinho B   momento total   energia perdida

O botão Ver do centro de massa deixa as contas mais simples. Para quem anda junto com o centro de massa, a 1 m/s nos valores iniciais, o momento total é zero antes e depois; o A chega a 3 m/s, o B a −1 m/s, e depois do choque eles saem a −1,5 e 0,5 m/s. Cada um inverteu o sentido e ficou com a fração \(e\) da velocidade que tinha. Para o momento continuar nulo, as duas velocidades precisam manter a proporção inversa das massas, e por isso um único número basta para descrever a colisão inteira.

A energia também se separa em duas partes. Uma é a do movimento do centro de massa, \(\tfrac12 (m_1+m_2)\,v_{\text{CM}}^2\), 2 J nos valores iniciais, que nenhuma força interna pode alterar porque ela depende só do momento total. A outra é a do movimento relativo, 6 J nos mesmos valores, e só dela a colisão pode tirar, já que é multiplicada por \(e^2\) e cai para 1,5 J. Os 4,5 J perdidos são os mesmos vistos do trilho ou do centro de massa, como diz a segunda equação abaixo, em que \(m_1 m_2/(m_1+m_2)\) é a chamada massa reduzida.

Feynman observa que corpos tão simples que não têm onde esconder a energia colidem de modo quase elástico, e que nem assim uma colisão real chega a \(e = 1\) exatamente.

\(v_2' - v_1' = -e\,(v_2 - v_1)\)\(\Delta K = \tfrac12\,\dfrac{m_1 m_2}{m_1+m_2}\,\) \((1-e^2)\,(v_1-v_2)^2\)\(v_1\), \(v_2\) são as velocidades antes do choque e \(v_1'\), \(v_2'\) as de depois; \(e\) é o coeficiente de restituição, entre 0 e 1, e \(\Delta K\) a energia cinética perdida, a mesma em qualquer referencial.

No Feynman: §10-4 Momentum and energy ↗

Para conversar

  • Ponha 1 kg nos dois carrinhos, deixe o B parado e leve \(e\) a 1. O que acontece com as velocidades? E com a barra da energia?
  • Com os valores iniciais e \(e = 0\), quanta energia se perde? Confira com a fórmula de \(\Delta K\). Que fração da energia do movimento relativo se perde com \(e = 0{,}5\)?
  • Ligue Ver do centro de massa. O que muda nas barras do momento? E na energia perdida?
  • Com o A em 0,5 kg contra o B em 4 kg parado e \(e = 1\), para que lado o A sai, e com que velocidade sai o B?
Velocidades depois A · B (m/s)
Momento antes · depois (kg·m/s)
Energia antes · depois · perdida (J)
PASSO 4

Como um foguete acelera no vácuo?

O foguete da bancada começa parado, cheio, com dez vezes a massa que terá vazio, e lança o combustível para trás a 3.000 m/s em relação a ele. Com uma porção só, os 90% da massa que são combustível saem de uma vez e o foguete fica com 2.700 m/s. Dividido o mesmo combustível em 1.000 porções, ele chega a 6.896 m/s, mais que o dobro, sem gastar um grama a mais.

Não há nada fora do foguete em que ele possa se apoiar, e nem precisa haver. O sistema é o foguete junto com o combustível, e o momento total, zero no início, continua zero. Cada porção que sai para trás leva um momento negativo, e o que sobra do foguete ganha o mesmo tanto para a frente, como os carrinhos do passo 1 empurrados pela mola. A aula de ensino médio sobre ação e reação trata o foguete pelo par de forças entre ele e os gases; aqui interessa quanto de velocidade cada porção rende.

Se a porção de massa \(\Delta m\) sai a \(u\) em relação ao foguete, medida já depois do empurrão, e \(m\) é a massa do foguete com a porção ainda a bordo, a conservação do momento dá exatamente \(m\,\Delta v = \Delta m\,u\). Com uma porção só, \(\Delta m\) é 90% de \(m_0\), e \(\Delta v\) sai 90% de \(u\), os 2.700 m/s da bancada. A animação mostra tudo visto de quem ficou parado no ponto de partida, e por isso as últimas porções, lançadas quando o foguete já anda mais depressa que \(u\), seguem para a frente, só que mais devagar que ele.

Dividir ajuda porque \(m\) vai diminuindo. A primeira porção empurra o foguete cheio, enquanto a última empurra pouco mais que a casca vazia, e a mesma massa de combustível rende ali muito mais velocidade. Quando as porções ficam cada vez menores, a soma dos \(\Delta m/m\) vira uma integral, e o resultado é \(\Delta v = u\ln(m_0/m_f)\), a equação que Konstantin Tsiolkovsky publicou em 1903. No gráfico os pontos de cada divisão sobem em direção à linha tracejada, sempre por baixo dela, e com razão 10 as dez porções dão 85% do limite e as cem, 98%.

O logaritmo cobra caro. Para dobrar o \(\Delta v\) é preciso elevar ao quadrado a razão entre as massas, e um foguete que vai para uma órbita baixa precisa de um \(\Delta v\) da ordem de 9 km/s, contando as perdas para a gravidade e para o ar. Com \(u\) = 3.000 m/s nem a razão 20 do controle chega lá. Por isso a maior parte da massa de um foguete na plataforma é combustível, e ele sobe em estágios; cada estágio vazio é largado no caminho, e o seguinte não precisa mais acelerar aquele peso morto.

O caso de uma porção só é o coice de uma arma de fogo, comparação que o próprio Feynman faz. A bala sai para a frente e a arma recua, tanto mais devagar quanto mais pesada for em relação à bala.

\(m\,\Delta v = \Delta m\,u\)\(\Delta v = u\,\ln\dfrac{m_0}{m_f}\)\(m\) é a massa do foguete antes de lançar a porção \(\Delta m\), \(u\) a velocidade com que ela sai em relação ao foguete, e \(m_0\), \(m_f\) as massas do foguete cheio e vazio.

No Feynman: §10-2 Conservation of momentum ↗ · §10-4 Momentum and energy ↗

Para conversar

  • Com razão 10 e \(u\) = 3.000 m/s, quanto o foguete ganha com 1, 2 e 10 porções? Quanto falta, em cada caso, para a linha tracejada?
  • Leve \(u\) de 1.500 para 3.000 m/s. O que acontece com o \(\Delta v\)? E se, em vez disso, a razão entre as massas for de 10 para 20?
  • Com \(u\) = 4.500 m/s, qual é a menor razão entre as massas que leva o \(\Delta v\) ideal acima de 9.000 m/s?
  • Na animação com uma porção, para que lado ela vai depois de sair? E com 1.000 porções, para que lado andam as últimas?
Δv com essas porções (m/s)
Δv ideal (m/s)
Razão entre os dois
PASSO 5

O que acontece com o momento perto da velocidade da luz?

A bancada empurra um elétron, parado no início, com uma força constante de 1,6·10⁻¹³ N, a que um campo elétrico de um milhão de volts por metro faz sobre a carga dele. Tudo se passa em nanossegundos, e a animação mostra 10 ns em 8 s, em câmera lenta. Ao fim desse tempo o momento chegou a 5,86 vezes \(mc\), que para o elétron vale 2,73·10⁻²² kg·m/s, e a velocidade a 0,986 da velocidade da luz. Pela conta de Newton, o mesmo momento dividido pela massa daria 5,86 vezes \(c\).

O gráfico do momento é uma reta porque a força continua a ser a taxa de variação do momento, e uma força constante soma a mesma quantidade de momento a cada nanossegundo, sem limite. O que muda é a relação entre momento e velocidade. Com \(p = \gamma m v\), a velocidade sai da segunda equação abaixo, e quando \(p\) fica muito maior que \(mc\) a raiz do denominador se aproxima de \(p/mc\) e \(v\) se aproxima de \(c\), sem chegar lá. No gráfico da velocidade, a reta tracejada de Newton cruza a linha de \(c\) em 1,71 ns e entra na faixa sombreada, onde nenhum corpo com massa pode estar.

Por que \(\gamma m v\) e não \(mv\)? O passo 2 mostrou que trocar de referencial muda os números de uma colisão sem estragar a conservação, desde que as velocidades se somem como na relatividade de Galileu. Na relatividade de Einstein elas se combinam de outro modo, e uma soma de \(mv\) que se conserva para um observador deixa de se conservar para outro que passe a grande velocidade. A grandeza que se conserva para todos é \(\gamma m v\). Para velocidades comuns a diferença some: aos 3.000 m/s do foguete do passo 4, \(\gamma\) passa de 1 por 5·10⁻¹¹, e só a 0,6 \(c\) chega a 1,25.

momento   velocidade   previsão de Newton, \(p/m\)

Na segunda metade da corrida, de 5 a 10 ns, o elétron ganha tanto momento quanto na primeira, 2,93 \(mc\), e a velocidade sobe só de 0,946 para 0,986 \(c\). Num acelerador o efeito é ainda mais extremo. O LHC, do CERN, recebe prótons com 450 GeV, quando eles andam cerca de 650 m/s abaixo de \(c\), e os leva a 6,8 TeV, com cerca de 15 vezes mais momento, para deixá-los a uns 3 m/s de \(c\). Cada volta no anel dá mais um empurrão, e o que cresce é o momento, quase nada a velocidade.

A energia cinética segue o momento, e não a velocidade. Ela vale \((\gamma - 1)\,mc^2\), como na aula do capítulo 4, e também cresce sem limite enquanto \(v\) se aproxima de \(c\). O que a força constante entrega a cada nanossegundo, em momento e em energia, continua chegando ao elétron; só deixa de aparecer como velocidade.

Feynman escreve a mesma lei de outro modo, com \(mv\) e uma massa que cresce com a velocidade; a maioria dos textos de hoje prefere manter a massa fixa e pôr o \(\gamma\) no momento, e os números são os mesmos. Ele também observa que o momento, ao contrário da energia, é difícil de esconder no movimento desordenado dos átomos, e que o campo eletromagnético pode carregá-lo, como a luz que empurra o que ilumina.

\(\vec p = \gamma\,m\,\vec v,\)\(\gamma = \dfrac{1}{\sqrt{1 - v^2/c^2}}\)\(v = \dfrac{p/m}{\sqrt{1 + (p/mc)^2}}\)\(m\) é a massa da partícula, \(\vec v\) a velocidade e \(c = 299\,792\,458\) m/s a velocidade da luz; \(\gamma\) é o fator de Lorentz, que vale 1 com a partícula parada. A segunda equação dá a velocidade a partir do momento.

No Feynman: §10-5 Relativistic momentum ↗

Para conversar

  • Com o elétron e a força inicial, pause quando o momento passar de 0,75 \(mc\). Quanto marcam \(v/c\) e \(\gamma\)? Confira com a fórmula de \(\gamma\).
  • Leve a força a 5. Quanto falta para \(c\) no fim da corrida? E com a força em 0,5?
  • Troque o elétron pelo próton, com a mesma força. Quanto tempo cada um leva para chegar a \(mc\)? Por que a razão entre os dois tempos é a razão entre as massas?
  • Em que instante a reta de Newton cruza a linha de \(c\)? O que a curva de verdade marca nesse instante?
Momento (em mc)
Velocidade (em c)
Fator γ

Para onde vamos

Nesta aula quase tudo andou numa linha só, e o momento pôde ser tratado como um número com sinal. Ele é um vetor, com três componentes que se conservam cada uma por si, e o capítulo 11 do Feynman, Vectors, cuida da linguagem que torna isso simples de escrever. Ele também está no site do Caltech, e a aula desta trilha que o acompanha é Vetores.