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Física Básica · Feynman Vol. I · Cap. 12

Características da Força

Esta aula acompanha o capítulo 12 das Feynman Lectures, que pergunta o que é uma força e de onde ela vem. A segunda lei só diz alguma coisa quando a força pode ser medida por outro caminho que não a própria aceleração, e por isso vale a pena olhar as forças uma a uma: o atrito, as forças entre átomos que estão por trás dele e das molas, os campos elétrico e magnético e as forças que só aparecem para quem mede de dentro de um referencial acelerado. O capítulo original pode ser lido de graça no site do Caltech.

  1. 1F = ma
  2. 2Atrito
  3. 3Átomos
  4. 4Campos
  5. 5Pseudoforças
PASSO 1

F = ma é uma lei ou uma definição?

A bancada põe um carrinho de 1 kg num trilho e o puxa com uma mola de 20 N/m. A outra ponta da mola vai na mão de alguém que anda à frente do carrinho, ajustando o passo para que a mola fique sempre 0,10 m mais comprida do que em repouso. A mola foi calibrada antes, pendurando pesos conhecidos, e por isso se sabe quanto ela puxa com cada esticamento: com 0,10 m, 2 N. Aperte Puxar e a velocidade sobe em linha reta no gráfico, 2 m/s a cada segundo, até 4 m/s no fim dos 2 s da corrida.

Com a mola esticada 0,20 m, a reta seguinte sai duas vezes mais inclinada, 4 m/s². Com o esticamento de volta em 0,10 m e um carrinho de 2 kg, a inclinação cai pela metade, para 1 m/s². As corridas anteriores ficam no gráfico em cinza, e em todas elas o produto da massa pela aceleração medida reproduz o \(k\,x\) da mola, como a mensagem embaixo da bancada confere a cada corrida.

força da mola   velocidade medida   previsão \(k\,x/m\)   corridas anteriores

Nada disso seria notícia se força fosse só um nome para o produto \(m\,a\). Bastaria medir a aceleração, multiplicar pela massa e chamar o resultado de força, e a segunda lei ficaria certa por construção, sem poder errar sobre carrinho nenhum. Ela passa a afirmar alguma coisa quando a força tem uma medida independente, como o esticamento de uma mola calibrada, porque aí a previsão \(k\,x/m\) pode ser posta ao lado da inclinação da reta e pode falhar. O teste está em usar a mesma mola, com o mesmo esticamento, em corpos de massas diferentes: se ela faz sempre a mesma força, \(m\,a\) tem de dar o mesmo número em todos, e um mundo em que isso não acontecesse seria perfeitamente imaginável.

A terceira lei acrescenta uma exigência que também nenhuma definição garante. O carrinho puxa a mola para trás com a mesma força com que a mola o puxa para a frente, e o mesmo vale entre a mola e a mão, de modo que o que se mede num corpo diz quanto vale uma força que age em outro. A aula de ensino médio sobre a segunda lei usa \(F = m\,a\) como regra de cálculo; esta bancada pergunta o que, na lei, poderia ter dado errado, e o resto da aula olha de onde vêm as forças que se põem do lado esquerdo.

\(F = k\,x\)\(a = \dfrac{F}{m} = \dfrac{k\,x}{m}\)\(k\) é a constante da mola, \(x\) é quanto ela está esticada além do comprimento de repouso e \(m\) é a massa do carrinho; a reta do gráfico tem inclinação \(a\).

No Feynman: §12-1 What is a force? ↗

Para conversar

  • Com 20 N/m e 1 kg, faça corridas com 0,10 m, 0,20 m e 0,30 m de esticamento. Quanto vale a aceleração dividida pelo esticamento em cada uma?
  • Mantenha 0,10 m e troque a massa por 2 kg e depois por 4 kg. Quanto vale \(m\,a\) em cada corrida, e por que esse é o número que importa?
  • Com uma mola de 40 N/m, que esticamento dá a mesma aceleração da mola de 20 N/m esticada 0,20 m?
  • Há alguma combinação de mola e esticamento que dê 2 m/s² a um carrinho de 4 kg?
Força pela mola (N)
Aceleração medida (m/s²)
Previsão kx/m (m/s²)
PASSO 2

Por que é mais difícil começar a empurrar do que continuar?

No cenário Puxando, um bloco de madeira de 2 kg está sobre uma mesa de madeira, e o controle Força aplicada o puxa na horizontal. Com 4 N o bloco não sai do lugar, e a mesa responde com 4 N de atrito no sentido contrário; com 8 N, responde com 8 N. No gráfico isso aparece como uma reta em que o atrito iguala a força aplicada, e o atrito estático só vai até 9,8 N, o coeficiente estático de 0,5 vezes a normal de 19,6 N. Um pouco além disso o bloco desliza.

Deslizando, o atrito cai para 5,88 N, o coeficiente cinético de 0,3 vezes a normal, e fica nesse valor com qualquer força e qualquer velocidade. Com 10 N puxando, sobram 4,12 N para acelerar os 2 kg, 2,06 m/s². Baixar a força para menos de 9,8 N não para o bloco, porque enquanto ele anda a mesa só freia com 5,88 N; ele perde velocidade e para quando a força fica abaixo desse valor. Começar exige vencer o pico \(\mu_s N\), e continuar exige apenas o patamar \(\mu_k N\).

Os coeficientes dos botões são valores típicos e aproximados. Na prática eles mudam com o estado das superfícies, e a diferença entre o estático e o cinético depende muito das condições, como o tempo em que as peças ficaram paradas em contato e a limpeza delas, e às vezes é pequena. Que o atrito quase não dependa da área de contato nem da velocidade são regras empíricas, que funcionam razoavelmente bem numa faixa de situações do dia a dia, e não leis fundamentais. A aula de ensino médio sobre o atrito mostra o mesmo pico com o bloco deitado e em pé.

força aplicada   atrito   normal   peso

O cenário Plano dá um jeito de medir \(\mu_s\) sem medidor de força nenhum. A mesa vira uma rampa e o ângulo vai subindo. A parte do peso ao longo da rampa, \(mg\,\mathrm{sen}\,\theta\), cresce, e a normal, \(mg\cos\theta\), diminui; o bloco começa a descer quando a primeira passa de \(\mu_s\) vezes a segunda, isto é, quando \(\operatorname{tg}\theta\) chega a \(\mu_s\). Com madeira sobre madeira isso acontece a 26,6°, e a massa não entra na conta, porque aparece dos dois lados. Em movimento, a 30° o bloco desce com 2,35 m/s², e só volta a parar se o ângulo cair abaixo de 16,7°, onde \(\operatorname{tg}\theta = \mu_k\). Feynman descreve a mesma medida, e a aula de ensino médio sobre a rampa decompõe o peso passo a passo.

Resta saber por que a área quase não importa. A explicação mais aceita costuma ser associada a Frank Bowden e David Tabor, em Cambridge, em meados do século XX: a área de contato verdadeira entre dois sólidos é uma fração pequena da área aparente e cresce com a força normal, e não com o tamanho do bloco. Com mais peso, os pontos onde as superfícies de fato se tocam se achatam e se multiplicam; deitar o bloco espalha o mesmo peso por mais pontos, cada um menos apertado, e a soma pouco muda. Nesses pontos os átomos das duas peças ficam perto o bastante para se atraírem, e o atrito seria, assim, uma consequência de forças entre átomos, que o passo 3 olha de perto.

\(f_s \le \mu_s N\)\(f_k = \mu_k N\)\(\operatorname{tg}\theta_c = \mu_s\)\(f_s\) é o atrito estático e \(f_k\) o cinético, \(N\) é a normal (\(mg\) na mesa e \(mg\cos\theta\) na rampa) e \(\theta_c\) é o ângulo em que o bloco começa a descer; os coeficientes \(\mu_s\) e \(\mu_k\) não têm unidade.

No Feynman: §12-2 Friction ↗

Para conversar

  • No Puxando, com madeira e 2 kg, até que força o bloco fica parado? Quanto vale o atrito com 5 N e com 9 N?
  • Com o bloco já deslizando, leve a força para 7 N. Ele para? E com 4 N?
  • Passe a massa para 4 kg. O que acontece com o pico e com o patamar do gráfico? E com o ângulo crítico do Plano?
  • No Plano, a partir de que ângulo o bloco desce com borracha sobre asfalto? E com aço sobre gelo?
Atrito (N)
Estado
Ângulo crítico
PASSO 3

Por que uma mola obedece à lei de Hooke?

Os dois átomos da bancada se empurram ou se puxam com uma força que depende só da distância \(r\) entre os centros. O da esquerda está preso e o da direita pode ser arrastado. As unidades são as da própria bancada, com \(\sigma = 1\) para as distâncias, \(\varepsilon = 1\) para as energias e, portanto, \(\varepsilon/\sigma\) para as forças. Levado a 1,05, o átomo móvel é empurrado para fora com 8,40; levado a 1,20, é puxado de volta com 2,21. Entre as duas posições há uma distância, 1,122, em que a força se anula, e ali o par pode ficar parado.

Os gráficos mostram o resto da curva. Para dentro de 1,122 a repulsão cresce muito depressa e a 1,02 já passa de 16. Para fora a atração aparece, chega ao máximo de 2,40 em 1,244 e depois enfraquece, até ficar abaixo de 0,1 em 2,2. A energia potencial tem um poço de profundidade \(\varepsilon\) exatamente na distância em que a força some, e a força em cada ponto é menos a inclinação da curva de energia.

As duas curvas vêm do potencial de Lennard-Jones, associado a John Lennard-Jones, que trabalhou nessa forma nos anos 1920 e 1930, e até hoje muito usado em simulações de gases nobres e líquidos simples. Ele é um modelo, não a lei exata da força entre dois átomos. O termo em \(r^{-6}\) tem justificativa física para a atração entre átomos neutros, mas o termo em \(r^{-12}\) foi escolhido em boa parte por ser cômodo nas contas. Uma explicação completa dessas forças pede mecânica quântica, porque elas resultam do arranjo dos elétrons e núcleos dos dois átomos; a bancada aproveita só a forma geral, repulsão de perto, atração de longe e um mínimo de energia entre as duas, que se repete em muitos materiais.

força do modelo   previsão de Hooke   energia potencial

Perto de 1,122 a curva da força quase não se separa da reta tracejada, de inclinação \(-k\), com \(k \approx 57{,}1\,\varepsilon/\sigma^2\). Isso é uma mola. A 1,12 a reta prevê 0,141 e o modelo dá 0,144; a 1,115, 0,426 contra 0,457. O argumento não depende dos expoentes do modelo: qualquer força que venha de uma energia com um mínimo suave é, perto dele, proporcional ao deslocamento e de sentido oposto, porque ali a curva de energia se confunde com uma parábola, a tracejada do gráfico de cima. Numa mola de aço, cada ligação entre átomos se afasta muito pouco do seu mínimo, e a resposta linear da mola inteira parece vir daí.

A reta só serve perto do fundo do poço. A 1,10 ela já erra por 19%, e a 1,15 por 29%; no máximo da atração, em 1,244, prevê quase três vezes a força do modelo. Numa mola de verdade, esticar além da faixa linear deixa uma deformação permanente ou rompe o material. O botão Soltar mostra a diferença em movimento, com o tempo medido em \(\sigma\sqrt{m/\varepsilon}\), em que \(m\) é a massa do átomo móvel. Solto em 1,15, ele vai até 1,099 e volta em 0,84, quase o 0,83 da mola de Hooke; solto em 1,5, leva 1,72, mal passa de 1,015 do lado de dentro e fica a maior parte do tempo longe, na parte rasa do poço.

\(U(r) = 4\varepsilon\left[\left(\tfrac{\sigma}{r}\right)^{12} - \left(\tfrac{\sigma}{r}\right)^{6}\right]\)\(F = -\dfrac{dU}{dr}\)\(F \approx -k\,(r - r_0),\)\(k = \dfrac{d^2U}{dr^2}\Big|_{r_0}\)\(r_0 = 2^{1/6}\sigma \approx 1{,}122\,\sigma\) é a distância de equilíbrio, onde \(U = -\varepsilon\); \(F\) positiva empurra os átomos para longe e negativa os puxa um para o outro.

No Feynman: §12-3 Molecular forces ↗

Para conversar

  • A que distância a força é zero, e quanto vale ali a energia potencial?
  • Entre que distâncias a previsão de Hooke fica a menos de 10% da força do modelo?
  • Solte o átomo em 1,15 e depois em 1,8. Quanto dura cada vaivém, e de que lado do equilíbrio ele passa mais tempo?
  • Ligue o amortecimento e solte o átomo em 1,5. Onde ele para, e por quê?
Distância r (σ)
Força do modelo (ε/σ)
Hooke, −k(r − r0)
PASSO 4

Como uma força age à distância?

No cenário Só B, um elétron a 1 milhão de metros por segundo anda numa região de campo magnético uniforme de 1 mT, que sai da tela (são os pontos). Ele não segue reto: descreve um círculo de 5,69 mm de raio e volta ao ponto de partida em 35,7 ns. Com o dobro da velocidade o círculo dobra, e a volta continua levando 35,7 ns; com o dobro do campo, raio e tempo de volta caem pela metade. A cena roda em câmera lenta, 12 ns de elétron para cada segundo de tela, com o mesmo fator em todos os casos, e por isso os tempos de volta podem ser comparados a olho.

O que curva o elétron é a força magnética \(q\,\vec v\times\vec B\), perpendicular à velocidade e ao campo ao mesmo tempo. Como ela é sempre perpendicular ao movimento, muda a direção da velocidade sem mudar a rapidez, e faz o papel da resultante centrípeta: igualando \(|q|\,v\,B\) a \(m v^2/r\) sai o raio, e o tempo de volta, \(2\pi r/v\), deixa de depender de \(v\). A aula de ensino médio sobre a força magnética numa carga faz essa conta com íons. A carga do elétron é negativa, e para ele a força aponta para cima quando anda para a direita com o campo saindo da tela, o contrário do que sentiria um próton; por isso ele gira no sentido anti-horário.

Somando a força que um campo elétrico \(\vec E\) faz sobre qualquer carga, parada ou não, chega-se à força de Lorentz, \(\vec F = q\,(\vec E + \vec v\times\vec B)\). Ela dá a força sobre a carga a partir dos dois campos no ponto em que ela está, sem perguntar o que os produz.

velocidade   força sobre o elétron   trajetória

Nada encosta no elétron, e mesmo assim ele é desviado. A ideia de campo separa quem produz a força de quem a sente: as fontes fixam o valor do campo em cada ponto, e a carga só precisa do valor no ponto onde está. Na bancada, o ímã ou a bobina que fariam esse \(\vec B\) nem aparecem. A força que as fontes produzem segue leis simples. A força entre duas cargas paradas cai com o inverso do quadrado da distância, como a gravitação, cuja lei em \(1/r^2\) a aula sobre a gravitação discute, e por isso eletricidade e gravitação são chamadas de forças fundamentais, ao contrário do atrito e da força entre átomos, que resultam de somas complicadas de efeitos elétricos.

No cenário E e B, o elétron passa entre duas placas carregadas que acrescentam um campo elétrico vertical. A força elétrica não depende da velocidade, a magnética cresce com ela, e as duas apontam em sentidos opostos. Com 1 kV/m e 1 mT elas se cancelam só para quem anda a \(E/B = 10^6\) m/s: esse elétron passa reto e atravessa a fenda. Os que andam bem mais devagar ou mais depressa batem numa placa ou erram a fenda; perto de \(E/B\) uma faixa estreita ainda passa, e com \(B\) forte o elétron pode dar voltas inteiras entre as placas e cair na fenda por acaso. Um arranjo assim escolhe velocidades, e o equilíbrio entre os dois desvios é o mesmo que J. J. Thomson usou em 1897, num tubo de raios catódicos, para medir a velocidade dos elétrons e chegar à razão entre a carga e a massa deles.

Ficam de fora as forças nucleares, que só agem a distâncias do tamanho de um núcleo, perto de \(10^{-15}\) m, e para as quais não se conhece uma lei simples como a do inverso do quadrado.

\(\vec F = q\,(\vec E + \vec v\times\vec B)\)\(r = \dfrac{m v}{|q| B}\)\(T = \dfrac{2\pi m}{|q| B}\)\(v = E/B\)\(r\) e \(T\) são o raio e o tempo de volta com \(\vec v\) perpendicular a um \(\vec B\) uniforme; \(v = E/B\) é a velocidade que passa reto com \(\vec E\), \(\vec B\) e \(\vec v\) perpendiculares entre si. Para o elétron, \(|q| = 1{,}602\cdot10^{-19}\) C e \(m = 9{,}109\cdot10^{-31}\) kg.

No Feynman: §12-4 Fundamental forces. Fields ↗ · §12-6 Nuclear forces ↗

Para conversar

  • No Só B, com 1 mT, leve a velocidade de 1 para 3·10⁶ m/s. O que acontece com o raio e com o tempo de uma volta?
  • Que campo magnético põe um elétron a 2·10⁶ m/s num círculo de 5,69 mm de raio?
  • No E e B, com 2 mT e 3·10⁶ m/s, que campo elétrico deixa o elétron passar reto?
  • Com o campo elétrico acima de \(v\,B\), para que lado o elétron desvia? E com o campo elétrico desligado, a 1 mT e 10⁶ m/s?
Raio previsto · medido (mm)
Tempo de volta (ns)
E/B (10⁶ m/s)
PASSO 5

De onde vem a força que joga a gente para trás num carro que arranca?

Do teto do carro da bancada pende uma bolinha num fio. Com o carro andando a velocidade constante o fio fica a prumo, mas basta pôr o controle em 3 m/s² para a bolinha ficar para trás, balançar um pouco e se acomodar com o fio inclinado 17,0° em relação à vertical. Com 5 m/s² o ângulo vai a 27,0°; freando a 3 m/s², o fio inclina os mesmos 17,0°, agora para a frente. Nem a massa da bolinha nem a velocidade do carro entram no resultado, só a aceleração, e o fio para onde \(\operatorname{tg}\theta = a/g\). Um pêndulo pendurado assim serve de acelerômetro.

No botão Visto da estrada, a câmera está parada no acostamento e o carro atravessa a tela, numa cena que recomeça a cada passagem. Daí se vê a bolinha ganhar velocidade junto com o carro, e a lupa da bancada mostra as duas forças que agem nela, o peso e a tensão do fio. Com o fio inclinado as duas não se cancelam, e, depois que a bolinha se acomoda, sobra uma resultante horizontal, para a frente, que vale exatamente \(m\,a\). É ela que acelera a bolinha, e a segunda lei funciona sem ajuste nenhum. A cena roda em câmera lenta, com metade da velocidade.

tensão   peso   pseudoforça   resultante

No botão Visto de dentro do carro, a câmera vai presa ao carro. Quem anda agora é a estrada, para trás e cada vez mais depressa, e a bolinha está parada, pendurada torta. O peso e a tensão são os mesmos de antes e continuam somando uma resultante para a frente, só que, para quem está no carro, a bolinha não acelera. A segunda lei só vale ali se entrar na conta uma força a mais, \(-m\,\vec a\), que aponta para trás e que nenhum corpo exerce. É uma pseudoforça, e é ela que, para quem está dentro, parece jogar o passageiro contra o encosto quando o carro arranca. Numa pessoa de 70 kg, 3 m/s² dão 210 N, pouco menos de um terço do peso dela.

Como o peso, a pseudoforça é proporcional à massa, e de dentro do carro as duas se somam numa gravidade efetiva inclinada, de valor \(\sqrt{g^2 + a^2}\), que dá 10,25 m/s² com 3 m/s². O fio aponta na direção dela, e uma pedra solta no carro cairia ao longo do fio. Um passageiro com as janelas tapadas lê no pêndulo 17,0° e 10,25 m/s², e um carro parado num lugar onde a gravidade valesse 10,25 m/s², inclinada, daria a mesma leitura. Albert Einstein, em 1907, fez disso um princípio, o princípio de equivalência, que acabaria levando à relatividade geral, concluída em 1915.

A força centrífuga é do mesmo tipo, só que num referencial que gira, como o de um ônibus fazendo a curva. Para quem está dentro, a conta fecha com uma força para fora, proporcional à massa e sem corpo nenhum por trás; para quem olha da calçada, ela some, e o que existe é a força centrípeta, papel que a aula de ensino médio sobre a força centrípeta atribui a forças de verdade, como o atrito ou a tração. A pseudoforça não é um erro. Ela é o preço de descrever o movimento a partir de um referencial acelerado, e com ela as contas feitas dentro do carro dão o mesmo que as feitas na estrada.

\(\vec F_{\text{pseudo}} = -m\,\vec a\)\(\operatorname{tg}\theta = \dfrac{a}{g}\)\(g_{\text{ef}} = \sqrt{g^2 + a^2}\)\(\vec a\) é a aceleração do carro, \(\theta\) é o ângulo do fio com a vertical quando a bolinha para de balançar e \(g_{\text{ef}}\) é a gravidade que se mede de dentro do carro, com \(g = 9{,}8\) m/s².

No Feynman: §12-5 Pseudo forces ↗

Para conversar

  • Com 2,5 m/s² e com 5 m/s², o ângulo do fio dobra? E a pseudoforça numa pessoa de 70 kg?
  • Freando a 4 m/s², para que lado o fio inclina, e quanto vale a gravidade efetiva?
  • Ponha a aceleração em zero. O carro passa a andar a 3 m/s constantes. De dentro, o pêndulo permite dizer se ele anda ou está parado?
  • Visto de dentro do carro, aperte Recomeçar e acompanhe a seta da resultante enquanto a bolinha balança. Quando ela some?
Ângulo do fio
Gravidade efetiva (m/s²)
Pseudoforça em 70 kg (N)

Para onde vamos

Esta aula perguntou o que é uma força e de onde ela vem, e deixou de lado o que acontece quando uma força acompanha um corpo ao longo de um caminho. O capítulo 13 do Feynman, Work and Potential Energy (A), trata do trabalho que ela realiza nesse caminho e da energia potencial, uma ideia que já apareceu aqui no poço de energia do passo 3. Ele também está no site do Caltech, e a aula desta trilha que o acompanha vem depois desta.